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Reconstrução pós-Katrina foi ‘lenta e dolorosa’: o que o Rio Grande do Sul pode aprender?

Apesar das diferenças, catástrofe que destruiu Nova Orleans em 2005 mostra que processo de recuperação é lento e exige comprometimento com a infraestrutura e readequação das cidades

26/05/2024 às 07h20 Atualizada em 26/05/2024 às 20h00
Por: MTb:0003449/CE Fonte: Estadão
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Reconstrução pós-Katrina foi ‘lenta e dolorosa’: o que o Rio Grande do Sul pode aprender?

Milhares de quilômetros de casas destruídas e cidades alagadas - esta cena que hoje assola o Rio Grande do Sul aconteceu há 19 anos, em agosto de 2005, nos Estados Unidos, quando o Furacão Katrina destruiu a cidade de Nova Orleans e regiões ao seu redor. A catástrofe custou mais de U$ 120 bilhões aos cofres do governo americano. Até hoje, porém, a capital de Luisiana não voltou a ter a mesma quantidade de habitantes pré-Katrina.

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Apesar de serem fenômenos meteorológicos diferentes - furacão e tempestades -, ambos foram desastres naturais e climáticos com fortes prejuízos às sociedades afetadas. No episódio de 2005, o furacão foi ocasionado por condições propícias à formação desses eventos meteorológicos devido à temperatura quente do oceano e ventos de cisalhamento baixos (que podem desfazer uma tempestade em desenvolvimento) e padrões de pressão atmosférica.

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Já no Brasil, a catástrofe se configurou à medida em que a corrente de ar fria, carregada de umidade e que ocasionou as tempestades, poderia ter se espalhado para outros Estados brasileiros, mas foi “barrada” por uma massa de ar quente na região central e sudeste do País. A recorrência de eventos extremos na região sofre influência do aquecimento global impulsionado pelas atividades humanas, apontam os especialistas.

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“Mudanças climáticas são ações provocadas por nós, seres humanos, a ponto de que conseguimos mudar a dinâmica atmosférica, climática do mundo inteiro. Os fenômenos atmosféricos, como furacões, chuvas, estiagens, tempestades, têm ficado cada vez mais intensos, tanto em quantidade, como também na força com que chegam nas localidades”, afirma a internacionalista e geógrafa Tatiana Leite Garcia, que atua como consultora e é doutora em Geografia Humana na Universidade de São Paulo (USP).

“Devido a alguns governos e pessoas não acreditarem nos estudos relacionados às mudanças climáticas e ultrapassagem das fronteiras ambientais, também reflete no descaso dos investimentos em infraestrutura e educação para prevenção de desastres socioambientais”, completa.

Considerando as semelhanças e diferenças entre os dois episódios, o que o Brasil pode aprender com o processo de recuperação de Nova Orleans após o Katrina para reconstruir o Rio Grande do Sul? E o que pode ser feito para evitar que novos episódios semelhantes aconteçam tanto no Estado gaúcho quanto em outras regiões?

Há semelhanças entre os territórios de Nova Orleans e do Rio Grande do Sul?

Nova Orleans está às margens do Lago Pontchartrain e do Rio Mississippi, em uma área abaixo do nível do mar, e dispunha de diques para se proteger das águas.

Já no Rio Grande do Sul, não há cidades abaixo do nível do mar, mas o Estado é cortado por rios e lagoas, como a Lagoa dos Patos e o Guaíba, e possui diversas barragens. A capital possui ainda um sistema de diques projetado para proteger a cidade contra as cheias do Lago Guaíba.

Essas características geográficas fazem com que ambos os territórios sejam mais propícios a serem alagados. “Ambas cidades têm elementos em comum de presença de corpos de água e um sistema de contenção de enchentes, porém precários”, afirma Tatiana.

Qual catástrofe gerou maior impacto e prejuízos?

Enquanto no Rio Grande do Sul o impacto territorial foi maior do que na região de Nova Orleans - com 3,8 mil quilômetros afetados no Brasil e 2,4 mil quilômetros nos EUA -, o número de pessoas afetadas pelo Katrina pode ter sido superior: mais de um milhão de pessoas chegaram a ficar desalojadas em algum momento, considerando não apenas a capital de Luisiana como toda a região do Golfo do México.

Parte desses moradores retornou a suas casas dias depois, mas após um mês do furacão, ainda havia em torno de 600 mil pessoas desalojadas. Houve ainda cerca de 1.400 mortes causadas pelo Katrina na região.

Já no Estado gaúcho, por enquanto foram contabilizadas 540 mil pessoas desalojadas e mais de 160 mortes. Esses números, porém, serão atualizados nas próximas semanas, com o fim das enchentes.

O Katrina estava previsto e como Nova Orleans se preparou para o furacão?

Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos, devido à alta frequência de furacões na região do Golfo do México, há um sistema de alerta bastante robusto, segundo Tatiana. No dia anterior à tragédia, a prefeitura de Nova Orleans emitiu uma ordem de evacuação obrigatória. Luisiana ativou seu plano de resposta a emergências e foi feito o maior esforço de evacuação da história dos Estados Unidos.

“É difícil imaginar a amplitude total dos eventos que ocorreram e a duração do impacto prolongado dessa tempestade, mas havia modelos que previam impactos de tempestades e furacões de tamanho equivalente à posição geográfica da cidade, que apontavam os pontos fracos da infraestrutura. Além disso, furacões significativos anteriores (especialmente o Betsy-1965) e enchentes (enchente do Rio Mississippi em 1927) também forneceram pontos de referência históricos para possíveis eventos futuros”, explica a professora da Universidade de Louisiana em Lafayette, Liz Skilton, especialista em história da resposta humana a desastres.

Apesar dos esforços para evacuação, nem todos os moradores saíram do território, afirma Tatiana. “Nem sempre que os sistemas de alertas disparam, o fenômeno vai necessariamente causar catástrofes. Na época, a população já tinha evacuado e voltado em outros momentos, mas no Katrina, algumas pessoas achavam que não iria acontecer nada muito sério”, diz a internacionalista e geógrafa.

Tanto no Rio Grande do Sul quanto em Nova Orleans, foi preciso instalar diversos abrigos para as pessoas desalojadas.

Como foi a reconstrução da cidade americana?

Foram cerca de dez anos para que Nova Orleans conseguisse se reerguer. “A reconstrução da cidade foi lenta, dolorosa e demorada”, declara Skilton. Hoje, o turismo e a atividade econômica retornaram, mas o número de habitantes é pelo menos 20% menor do que antes do Katrina.

“Até hoje estão fazendo esses investimentos nas casas, mas também a manutenção desses muros de contenção, das bombas que vão ajudar nesse processo de retirada das águas dos pontos mais críticos da cidade”, diz Tatiana.

“Com todo o dinheiro que têm os Estados Unidos, que é uma potência econômica, militar, produtiva, e a gente sabe que foi demorado e que também essa reconstrução contou com organizações não governamentais e a ajuda das pessoas. No Sul, a mesma coisa. Muito dinheiro e ainda vai precisar dessa rede de solidariedade por um bom tempo”, acrescenta.

Já Skilton pontua que, de forma superficial, Nova Orleans se recuperou a ponto de ter uma “capacidade de vida vibrante”, viu oscilações positivas e negativas no crescimento econômico e populacional desde 2005, mas, em um nível mais profundo, alguns dos principais problemas relacionados à infraestrutura, ao planejamento e à vulnerabilidade a desastres ainda existem e continuam a atormentar seus residentes.

Foram necessários meses de limpeza devido às inundações. Segundo a professora da universidade americana, com os furacões Katrina e Harvey, os problemas de infraestrutura aumentaram as preocupações com as enchentes, pois as águas ficaram presas em áreas baixas e lá permaneceram por longos períodos, piorando os danos a casas e propriedades e a destruição regular causada por ventos com força de furacão.

Um ponto em comum entre os dois desastres é a presença de voluntários. Assim como ocorre agora no Rio Grande do Sul, em 2005 os afetados pelo furacão receberam ajuda de uma rede de solidariedade, tanto de civis, empresas, ONGs e apoio internacional.

“A burocracia nos Estados Unidos atrasou os recursos para chegarem e o que fez a grande diferença foi a rede de solidariedade. E isso também foi o que nós vimos no Brasil agora e até as ajudas internacionais que chegaram ao nosso País direcionado para o Rio Grande do Sul. A burocracia é um elemento chave”, aponta a doutora em Geografia Humana.

Especialistas também alertam para o fato de que em Nova Orleans, houve uma diferença étnico-racial nos impactos da população da cidade com o Katrina. “A distribuição da assistência humanitária foi desigual, aqueles mais afetados por esse evento climático foram os que menos receberam assistência humanitária. Isso é uma lição que o Brasil pode aprender: como fazer uma distribuição justa para essas pessoas e esses grupos sociais afetados, priorizando aqueles que são mais vulneráveis”, diz o professor da USP Guilherme Almeida, que estuda Direitos Humanos e Direito Internacional.

“No nosso País, as pessoas menos favorecidas economicamente moram em áreas de risco porque o valor daquela terra é baixo ou às vezes nem tem um valor. Essas pessoas, quando voltarem para suas cidades, vão continuar morando nas áreas de risco ou haverá uma política dos governos estaduais, municipais ou federal para tentar realocar essas pessoas para lugares mais planejados?”, completa Tatiana.

Quais lições pode ser aprendida com o Katrina?

Aliado a uma educação para que as pessoas saibam como se comportar em situações de catástrofes ambientais e como preveni-las, Tatiana afirma que é preciso que sejam feitos investimentos em bons sistemas de monitoramento e que haja uma governança interministerial e interfederativa para evitar novos desastres não só no Rio Grande do Sul, mas em outras localidades do Brasil - como já ocorreu em São Sebastião (SP) e Petrópolis (RJ).

“Temos que começar a nos preparar porque tem sido cada vez mais recorrentes essas tragédias relacionadas a grandes volumes de chuvas, deslizamentos”, ela diz.

Nesse sentido, Almeida acrescenta que a reconstrução das cidades precisa ser feita com soluções baseadas na natureza.

Ele menciona também a necessidade de uma democracia participativa com soluções que ouçam a população afetada. “E não só ouvir a população afetada, como fazer com que elas sejam reais atores da reconstrução. Vai ser um trabalho colossal e que vai demandar auxílio das mais diversas instituições, governo federal, governo estadual, universidade, sociedade civil”, destaca.

Para Skilton, por sua vez, ao observar “os fracassos da resposta ao furacão Katrina”, o Brasil pode ser capaz de implementar estratégias e recursos melhores para ajudar as populações mais vulneráveis ao desastre e evitar o impacto persistente das enchentes nessas populações.

Almeida destaca, por fim, a importância de que o Brasil tenha uma agência para resposta a desastres naturais, como a FEMA (Federal Emergency Management Agency), que faz parte do Departamento de Segurança Interna dos EUA e atuou diretamente no episódio do furacão Katrina.

No Brasil, a Defesa Civil tem um papel semelhante, mas é “uma área dos governos que costuma ter um pequeno orçamento e muito mal equipada”, segundo Almeida. “Num quadro onde qualquer localidade pode viver eventos climáticos extremos, a Defesa Civil deve ser fortalecida e estar equipada para lidar com essas questões”, ressalta.

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