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‘Paciente no chão’: usuários e trabalhadores denunciam superlotação e cancelamento de cirurgias no HGF

Unidade do Governo do Estado é a maior da rede pública de saúde do Ceará; diretoria reconhece problemas e aponta providências

08/07/2024 às 18h50 Atualizada em 09/07/2024 às 09h50
Por: MTb:0003449/CE Fonte: Diário do Nordeste
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‘Paciente no chão’: usuários e trabalhadores denunciam superlotação e cancelamento de cirurgias no HGF

Uma das estruturas de referência no atendimento em saúde do Ceará está com a assistência comprometida pela superlotação. Pacientes e funcionários do Hospital Geral de Fortaleza (HGF) denunciam que o equipamento estadual “não dá conta da demanda”, resultando em situações opostas ao conceito de saúde.

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Em visita à unidade na sexta-feira (5), a equipe do Diário do Nordeste ouviu usuários e acompanhantes, e constatou um dos cenários descritos por eles: a própria recepção e os corredores da emergência estavam repletos de pacientes em macas, incluindo idosos.

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Um deles era o avô de Nayana Silva, 35, idoso de 79 anos que foi acometido por uma pneumonia e precisou buscar atendimento médico. “Ele passou a noite toda numa cadeira. À 1h da madrugada, saiu uma pessoa e conseguimos uma poltrona”, relatou a neta.

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“Na poltrona, foi pior, os pezinhos dele incharam, porque ele tem problema de circulação. Ele não tá em observação nem nada disso, eu assinei o prontuário de internação: ele tá internado e nessas condições”, lamentou Nayana.

Ela relata que, após a admissão do avô, perguntou para qual leito iria. “O funcionário disse ‘vão ficar aí mesmo’. Fiz amizade e consegui uma maca estreitinha, e ele tá nela, na porta do banheiro”, descreve. Da calçada do hospital, era possível ver a maca do idoso no corredor.

Nayana conta que o pai dela também é acompanhado no HGF, mensalmente, após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (o hospital é o centro de referência no atendimento e tratamento da doença no Ceará) – e observa que “a cada dia a lotação é maior”.

 
Tinha paciente deitado no chão, coisa que não se via mais. A gente, acompanhante, não tem como dormir. Teve gente que passou a noite em pé.
Nayana Silva
Acompanhante de paciente

O cenário, de acordo com relato de outra acompanhante ouvida pela reportagem, é reconhecido por profissionais de saúde de outras unidades. O pai dela, de 90 anos, foi transferido de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ao HGF – mesmo sob ressalvas.

“O médico da UPA disse que só um especialista do HGF faria o procedimento. ‘Mas a senhora vá logo sabendo que, se aceitarem ele, é pra ficar nos corredores’. O próprio médico me disse isso. Eu respondi que queria saber era de socorrer meu pai”, disse a mulher, que preferiu não ser identificada.

Segundo ela, o idoso ingressou no HGF às 16h de quinta-feira (4), e na manhã de sexta (5) permanecia em uma maca na recepção da emergência. “Tem gente demais, e a gente fica nessa agonia, sem ter nem onde sentar. Minha irmã passou a noite em pé”, frisou.

 

Fachada do Hospital Geral de Fortaleza (HGF)
Legenda: Fachada do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), no bairro Papicu
Foto: Thiago Gadelha

A superlotação, ela diz, repercute na assistência. “A gente tem que se virar. Até agora meu pai não tinha tomado banho nem nada. Quem pode se levantar da maca, vai e toma. No caso dele, tem que ter um profissional, mas não tem”, denuncia.

Outra paciente idosa, que se identificou apenas como Francisca, de 69 anos, buscou o HGF com fortes dores decorrentes de uma cirurgia de remoção de pedras nos rins. Ela relata que chegou ao hospital às 13h de quinta (4), “morrendo de dor”, e só conseguiu sair às 22h.

“Consegui fazer uns exames e a mulher disse ‘pode ir embora, não vai sair tão cedo’. Saí daqui dez horas da noite, voltei hoje pra buscar os resultados. Era muita gente, cheio, cheio”, disse, emocionada ao refletir que “pobre sofre demais”.

FALTA DE PROFISSIONAIS

O impacto da superlotação na prestação do serviço é atestado por quem trabalha na unidade. Uma profissional de saúde ouvida pelo Diário do Nordeste, que preferiu não ser identificada, confirma que há uma “fila de pacientes nos corredores da emergência, demorando o tempo de permanência deles na unidade”.

A funcionária estima que “o caos” se instalou há cerca de 3 meses, somando-se a ele o cancelamento de cirurgias por “falta de equipes”. “Na clínica oncológica, uma paciente teve a cirurgia agendada 5 vezes e, após fazer todo o preparo, foi cancelada”, informa.

 

“Tem uma colega que semana passada chamaram ela pra fazer a cirurgia e já foi cancelada novamente. Temos 16 salas, só 8 estão funcionando”, denuncia a trabalhadora, que atua no HGF há vários anos.

 

Pacientes no corredor do HGF
Legenda: Pacientes em um dos corredores do HGF
Foto: Obtida pelo Diário do Nordeste

A trabalhadora da saúde reconhece que “o dimensionamento das equipes é totalmente fora da norma”, e aponta que “um técnico de enfermagem fica responsável por vários pacientes, o que reflete na assistência”. “Os profissionais estão adoecendo por conta da sobrecarga.”

“Demora muito o atendimento. É um descaso com a vida do ser humano. Os pacientes e a família sofrem. É extremamente fora do comum. Tenho décadas de profissão e nunca vi um hospital assim”, lamenta a profissional.

DIREÇÃO RECONHECE PROBLEMAS

Diário do Nordeste procurou a gestão do HGF para obter um posicionamento sobre os problemas. A médica Ivelise Brasil, diretora-geral do hospital, reconheceu, justificou e apontou providências para algumas falhas.

‘SUPERLOTAÇÃO ROTATIVA’

Sobre a grande quantidade de pacientes em corredores e na recepção da emergência, Ivelise afirma que há uma “superlotação rotativa”, causada pelo fato de que a unidade é a única que realiza diversos serviços especializados de saúde.

“Os pacientes vêm transferidos de UPA, Frotinha ou interior; e algumas vezes diretamente à porta. Na maioria das vezes, são muito complexos, praticamente 50% só podem ser resolvidos aqui. E existe uma política no hospital de não negar atendimento de forma nenhuma”, pontua.

 

4 MIL
pessoas são atendidas por mês na emergência do HGF, admitidas para exames e assistência médica.

 

“Isso gera uma superlotação rotativa: os pacientes entram, fazemos o diagnóstico, identificamos a situação e procuramos, num tempo curto, montar uma logística para que ele vá pra um local ideal para continuar a ser atendido”, complementa Ivelise.

A diretora destaca que o HGF é referência ou, em alguns casos, o único hospital com estrutura adequada para atender doenças como insuficiência renal aguda, AVC, problemas vasculares, tumores cerebrais em situação de urgência e outras “superespecialidades”, como ela define.

FALTA DE PESSOAL

A alta demanda esbarra na falta de trabalhadores suficientes para atendê-la. A diretora garante que a gestão “tem controle do dimensionamento”, e que quando o número de pacientes excede o ideal de enfermeiros, técnicos e médicos, “imediatamente são alocados profissionais extras”.

“Eventualmente, temos situações de a entrada (de pacientes) ser maior que o esperado. É bom lembrar também que o profissional de saúde adoece, e nem sempre tenho o substituto em tempo hábil”, frisa a diretora.

Ivelise estima que, nos últimos 18 meses, “mais de 900 novos servidores do concurso” foram alocados no HGF, referindo-se ao certame da extinta Fundação Nacional de Saúde Coordenação Regional do Ceará (Funsaúde).

“Isso está dentro do cronograma de chamamento publicizado. E tivemos outros chamamentos adicionais. Em relação ao pessoal, está bem dimensionado”, reforça.

CIRURGIAS CANCELADAS

A diretora do HGF confirma que houve cancelamento de cirurgias por falta de pessoal, mas destaca que “isso está normalizado”. Ivelise explica que um imbróglio contratual com uma cooperativa que fornece técnicos de enfermagem à unidade gerou um déficit temporário no número de trabalhadores.

“Os técnicos fazem a instrumentação cirúrgica, são essenciais para isso. Como contingência, autorizamos que os enfermeiros pudessem assumir essas funções. Mas algumas atividades são muito específicas”, pondera. 

 

“Tivemos que reduzir (as cirurgias) para garantir a segurança dos pacientes. Não poderíamos colocar um número maior de procedimentos com um número menor de pessoas. Pior do que não prestar o serviço é prestar um mau serviço”, conclui a médica.

 

Ivelise nega que o hospital tenha suspendido as cirurgias por falta de leitos de recuperação disponíveis. “Não tem essa possibilidade. Ampliamos as UTIs, colocamos um gestor a mais. Consequentemente, o paciente tem alta mais rápido e temos mais leitos disponíveis.”

De janeiro a junho deste ano, de acordo com dados do HGF, foram realizadas 3.785 cirurgias eletivas na unidade, número 10% superior ao mesmo período de 2023, quando foram efetivados 3.429 procedimentos cirúrgicos marcados.

PACIENTES NO CHÃO E AMPLIAÇÃO DA ESTRUTURA

Sobre os relatos de pacientes internados em cadeiras e de acompanhantes pernoitando em pé, diretora declara que “a situação é de conhecimento do hospital” e que, ao assumir o cargo de diretoria da unidade, “já existia um planejamento de ampliação”. Sobre o cenário pacientes precisarem deitar no chão durante a assistência, a gestão nega.

“Estamos reformando a recepção do ambulatório do hospital, e vamos começar a obra de ampliação dos leitos de emergência. Serão mais 45 leitos de internação breve, separados por especialidade: 15 para cirurgia, 15 para neurologia e 15 clínica médica”, informa.

 

Além disso, a gestora pontua que tem sido fortalecido o chamamento de outros hospitais para atuarem com “leitos de retaguarda”, recebendo os pacientes encaminhados do HGF e “diminuindo o número de pessoas na recepção da emergência”.

 

Equipamentos como o Hospital Leonardo Da Vinci (HLV), Hospital Geral Dr. Waldemar de Alcântara (HGWA) e Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), todos vinculados à Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), estão entre os utilizados para “desafogar” o HGF e “reduzir o corredor”, como descreve Ivelise.

“Esse diálogo com o Governo do Estado é diário e noturno. Temos um alinhamento completo e contínuo com a Sesa e fazemos reuniões de trabalho”, finaliza a diretora-geral.

PROCEDIMENTOS NA JUSTIÇA

A reportagem procurou o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) para saber se há acompanhamento e fiscalização da situação do HGF. Em nota, o órgão informou que “há quatro procedimentos que tramitam na 137ª Promotoria de Justiça de Fortaleza relacionados ao HGF e que podem ser acessados pelo público”.

  • Procedimento nº 09.2022.00028557-7: Acompanhamento do funcionamento das salas de cirurgia do HGF. O MPCE aguarda manifestação do Hospital acerca das providências adotadas para solucionar as irregularidades apontadas pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec) em inspeção realizada no último mês de março;
  • Procedimento nº 09.2023.00009859-3: Fiscalização da estrutura física, do atendimento, dos recursos humanos, bem como de equipamentos, materiais de expediente e de uso permanente no HGF. O MP aguarda fim do prazo para a Sesa dar informações a respeito de inspeção feita pela Célula de Vigilância Sanitária (Covis) do Hospital;
  • Procedimento nº 06.2023.00001180-6: Representação formulada pelo Sindicato dos Enfermeiros do Estado do Ceará (Senece) sobre suposto subdimensionamento do número de enfermeiros especialistas em estomaterapia. No momento, o MP programa audiência extrajudicial para debater a problemática;
  • Procedimento nº 06.2023.00001238-2: Investiga denúncia de demora excessiva no andamento da fila para cirurgias eletivas de litotripsia, isto é, retirada de pedras nos rins. O MPCE recebeu resposta do Hospital e a manifestação está em análise pela Promotoria.  

O órgão ministerial reforça que “o acesso aos procedimentos pode ser feito através do Sistema de Automação do Ministério Público”.

‘PISCINÃO’ DO HGF

 

Ala improvisada no corredor do HGF, em 2013, apelidada como
Legenda: Ala improvisada no corredor do HGF, em 2013, que ficou conhecida como "piscinão do HGF"
Foto: Bruno Gomes/Arquivo DN

O retrato de superlotação e pacientes nos corredores do HGF, sem vagas em leitos, não é novo. Há cerca de 11 anos, uma área improvisada na recepção do setor de emergência da unidade de saúde chegou a comportar uma média de 100 pacientes fora dos leitos – e ficou conhecida como “piscinão do HGF”.

 

Foto: Reprodução/Arquivo Diário do Nordeste

A situação foi denunciada por usuários e entidades que representam os trabalhadores. À época, meados de 2013, o secretário da Saúde era Ciro Gomes, e chegou a estipular um prazo de 90 dias para solucionar o problema.

Na véspera do fim do prazo, como mostrou reportagem do Diário do Nordeste, cerca de 20 pacientes ainda aguardavam transferência a outras unidades – mas realocados fora da recepção. “Alguns foram levados para um corredor no 2º piso do prédio, já apelidado de ‘varandão’”, registra a matéria.

 
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